LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

Alguns depoimentos / Homenagem

Cédula feita pelo Banco Central do Brasil de (Cr$ 50.000) cinquenta mil cruzeiros, homenageando Câmara Cascudo.

Homenagem

Em 1991, 5 anos após sua morte, a Casa da Moeda do Brasil emitiu a cédula de 50000 cruzeiros em sua homenagem. A cédula possui sua efígie ao lado de uma cena de jangadeiros, e no reverso, uma cena do Bumba meu boi, bailado popular do folclore brasileiro. A cédula ficou em circulação entre 09 de dezembro de 1991 e 15 de setembro de 1994, período relativamente curto, devido à inflação que levou o Brasil a fazer outras reformas monetárias. Durante o governo de Itamar Franco, o cruzeiro foi substituído pelo cruzeiro real, e a cédula foi carimbada para retificar seu valor para 50 cruzeiros reais.

Alguns depoimentos
Ele me raptou no navio! — Rachel de Queiroz

Luís da Câmara Cascudo foi um dos homens mais cultos que conheci ao longo da minha vida. Não faço esta declaração agora, quando reverenciamos seu centenário. Não estou querendo ser agradável a ninguém. Na verdade, nós tivemos pouca convivência porque ele morava em Natal e eu residia no Ceará ou aqui no Rio de Janeiro. Mas sempre que tínhamos oportunidade de nos encontrar, era aquele abraço, aquela amizade!

Falar do Cascudo é sempre muito agradável. Não vou fazer aqui retrospectiva de sua obra literária, não é fácil. Ele impressionava pelo saber. Sabia demais sem sair da outrora Natal provinciana. Outros que viviam nos centros mais adiantados, como eu, nem de longe podíamos nos comparar a Luis da Câmara Cascudo. Coisa de gênio, uma raridade neste país, de quem não conhecemos as grandes personalidades culturais.

Uma vez eu vinha de navio para o Rio. Quando o vapor atracou em Natal, aparece-me ele a bordo, dizendo que vinha me raptar. Gritou bem alto: “Vou lhe seqüestrar!!! Você agora é minha, não sairá mais de Natal! Temos de pisar este chão de minha cidade. Vamos embora, menina!”. Imagine, eu, uma menina! “Você ficará encantada com isto aqui, verá o pôr-do-sol mais lindo do mundo. Quero lhe mostrar o Potengi, juntando crepúsculos a seu lado, é muito bonito!”. O pessoal de bordo viu aquele homem de cabelo esvoaçante, belos olhos, elegantemente vestido, de paletó e gravata. Identificaram logo que era o escritor maior do Estado, Câmara Cascudo. Aí nos abraçamos e saímos escada abaixo, de mãos dadas. Não parava de gargalhar porque havia me “seqüestrado”.

Levou-me para a casa dele direto, e só me trouxe na hora de o navio partir. Passei o dia na casa dele, com a família dele; almoçamos juntos. Foi um encontro muito cordial. Não sei precisar exatamente o dia e o mês, mas sem dúvida a década era de 60. Eu não o conhecia antes. Depois do “rapto”, ficamos amigos até morrer. Morrer não, até ele “viajar”, como preferia. Tinha horror à palavra morte. Cascudo era o retrato do bom humor, da alegria de viver, descontração, inteligência, grande sensibilidade poética. Por isso ele continua cada vez mais vivo, suas lembranças são saudáveis e carinhosas. Encantava a todos nós. Não esqueço da ternura dele, do tratamento carinhoso de sua família. Aliás, devo ressaltar que nunca almocei tão bem quanto no sobrado da Ribeira, pratos regionais deliciosos. Um doce de coco divino, depois queijo com mel de engenho. Ah! Meu Deus, como o Cascudo nos faz falta neste momento brasileiro. Não é que ele gostasse de política, mas sabia, na hora certa, alfinetar com fina ironia. E o que dizia tinha muita projeção.

Fonte: Câmara Cascudo - Um homem chamado Brasil. Oliveira, Gildson.
Brasília: Brasília Jurídica, 1999.


Imagem de Cascudo — Carlos Drummond de Andrade

— Já consultou o Cascudo? O Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo.

O Cascudo aparece, e decide a parada. Todos o respeitam e vão por ele. Não é propriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sobre costumes, festas, artes do nosso povo. Ele diz tintim-por-tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manifestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha. Em vez de falar Dicionário Brasileiro poupa-se tempo falando “o Cascudo”, seu autor, mas o autor não é só dicionário, é muito mais, e sua bibliografia de estudos folclóricos e históricos marca uma bela vida de trabalho inserido na preocupação de “viver” o Brasil.

Agora, mandam dizer de Natal que vão comemorar os 50 anos de atividades culturais, os 70 anos de idade de Luís da Câmara Cascudo, o que é de inteira justiça. Bater palmas ficou muito sem sentido, depois que, na televisão, artistas se aplaudem a si mesmos, fingindo que aplaudem os acompanhantes ou o público, este último convidado perenemente a aplaudir tudo e a todos. O governo auto-aplaude-se, imitando o novo costume, e o Brasil parece uma festa... encomendada. Vamos esquecer o convencionismo publicitário, diante das comemorações a Cascudo. Este fez coisas dignas de louvor, em sua contínua investigação de um sentido, uma expressão nacional que nos caracterize e nos fundamente na espécie humana.

Lendo agora o vasto documento de Joaquim Inojosa sobre O Movimento Modernista em Pernambuco (também dois tomos em véspera de quatro), vou encontrar o jovem Luís da Câmara Cascudo, nos longes de 1925, tangendo a lira nova. Não é surpresa para mim, que o saiba poeta modernista, não arrolado por Bandeira em sua antologia de bissextos. Em carta que Inojosa reproduz (seu livro contém, muita coisa que vale a pena conhecer, como retrato intelectual dos anos 20), o futuro autor da Geografia dos mitos brasileiros manda-lhe dois poemas modernistas para serem publicados no Recife. Eram de um livro que em Agosto se chamava Bruaá e em Novembro do mesmo ano passaria a intitular-se Caveira no campo de trigo. Nunca se editou esse livro. O poeta Cascudo permaneceria inédito, sufocado pelo folclorista e historiador.

Este cronista sabia da fase poética de LCC por haver recebido dele, eram eras remotas, um Sentimental epigrama para Prajadipock, Rei do Sião, um reino “governado em francês”. Como também lhe conhecia estes Lundu de Collen Moore, que marca suas preferências nativistas sobre os mitos importados de Hollywood, é bem típico do nosso modo de dizer em 1929:

Os olhos de Collen Moore
olhos de jabuticaba
grandes, redondos, pretinhos...
mais porém
são olhos de americano,
meu-bem.
Eu sempre prefiro os seus,
meu bem!

Olhos de ver no cinema,
só lembra a gente espiando
e depois é se esquecendo,
meu-bem.
Eu sempre prefiro os seus,
meu-bem!

Olho de gente bem branca
que não mora no Brasil
fala fala atrapalhada,
meu-bem,
é olho de terra boa
mas porém
eu sempre prefiro os seus.
Meu-bem!...

Tocando o verso inicial pela prosa, Cascudo não abandonou “mais porém” a poesia. Em sua paixão de brasileirista, vista-a no lendário, nas tradições, na espiritualidade primitiva e lírica de nosso pessoal. E registra-a com esse amor de toda uma vida fiel à sua terra e sua gente.

Fonte: Revista Província 2
Natal: Fundação José Augusto, 1968.148 p.
2a ed. Fac-similar. Natal: EDUFRN - Editora da UFRN, Fundação José Augusto, IHGRN, 1998. 148 p.


Mestre Cascudo, tão jovem — Jorge Amado

Tão jovem aos setenta anos, Mestre Luís da Câmara Cascudo cada dia redescobre o Brasil num dito popular, numa lenda, na realidade de um instante mágico, na mesa do almoço ante um prato de nossa culinária, na face do homem e na medida de uma existência vivida toda ela em função da cultura, da cultura brasileira. Eis um mestre de Brasil, Cascudo.

Estivéssemos num tempo menos melancólico e limitado, estivéssemos num tempo de democracia e cultura, e por toda parte do Brasil seriam levantados monumentos a esse homem que atravessou e atravessa sua existência (pobre de bens materiais e rica de alegria criadora) no estudo e na invenção da pátria, da verdadeira nação brasileira, do homem brasileiro.

Temos muitos escritores importantes, sábios de alta qualidade, artistas magníficos, temos intelectuais de grande valor. Mestres, porém, temos poucos. Mestres no sentido amplo da palavra: construtores da realidade, da verdade brasileira, assim como Luís da Câmara Cascudo, tão jovem aos setenta anos.

Aqui, com minha homenagem de admiração e amizade, quero deixar uma pergunta: quando terei a alegria e a honra de votar em Luís da Câmara Cascudo para a Academia Brasileira?

Fonte: Revista Província 2
Natal: Fundação José Augusto, 1968.148 p.
2a ed. Fac-similar. Natal: EDUFRN - Editora da UFRN, Fundação José Augusto, IHGRN, 1998. 148 p.


Foto: Arquivo OpenBrasil.org
Luís da Câmara Cascudo - OpenBrasil.org

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